No deque do Morro da Babilônia, a 'capa' do livro de receitas ao ar livre

No deque do Morro da Babilônia, a ‘capa’ do livro de receitas ao ar livre Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Durante quatro dias, moradores e visitantes que subiam a ladeira Ari Barroso, na entrada do Morro da Babilônia , paravam em frente aos muros da entrada da comunidade para matar a curiosidade: nas paredes da rua do Rosário, desenhos de alimentos orgânicos, ao lado de receitas, ganhavam formas e cores. Os murais pintados, que foram inauguradas na última quinta-feira, fazem parte do livro de receitas ao ar livre do projetoFavela Orgânica . Além de democratizar o acesso à gastronomia consciente — um dos objetivos de Regina Tchelly, fundadora do projeto — o afresco também deu outro uso ao espaço da favela, segundo associação de moradores.

Paraibana e pioneira do projeto, Regina tinha a ideia de publicar um livro com suas receitas desde 2013, quando o Favela Orgânica, um centro de atividades voltadas para estimular a reutilização de alimentos descartados, ainda comemorava seu segundo aniversário de criação. Sem patrocínio e contando apenas com o dinheiro dos cursos e palestras que oferece na Babilônia, a iniciativa literária da chef de cozinha, no entanto, esbarrou em dificuldades financeiras para se concretizar.

— Queria publicar meu livro em uma editora convencional, mas, como eu nunca obtive apoio financeiro, ficou difícil. Aí liguei para um amigo meu desenhista e disse que queria fazer um livro com a minha cara. Quero botar as receitas no muro da favela para democratizar a alimentação para geral! As pessoas já me paravam na rua pedindo dicas e receitas. Quando terminou foi a coisa mais linda do mundo — disse a chef.

Muro em frente à Associação de Moradores pintado com as receitas e os alimentos orgânicos

Muro em frente à Associação de Moradores pintado com as receitas e os alimentos orgânicos Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Cativados com as pintadas de carinho da Regina, os moradores passaram a andar nas ruas com um bloco e caneta na mão anotando os pratos: chá do coração e da ressaca, tutu de talo de brócolis e risoto de casca de melancia são alguns deles. A chef começou a reforma do muro com duas latas de tinta esquecidas que tinha em casa; depois colocou a mão na massa junto com amigos e mobilizou mais de trinta vizinhos para ajudar nas pinturas.

Mudança de hábitos

Junto da vontade da Regina de expor seu trabalho aos moradores, os muros onde estão os desenhos também necessitavam de uma reforma. De acordo com Adriano Paraíso, secretário da Associação dos Moradores da Babilônia, as paredes em que estão as receitas eram um lugar de despejo de lixo e entulho, o que, disse Paraíso, é frequente em outras comunidades da cidade. As pinturas, contou ele, deram outra finalidade àquele espaço, que agora não serve mais como área de descarte.

— A impressão é que parece realmente um “seja bem-vindo à comunidade orgânica”. A Regina tem um espaço grande na comunidade, e as pessoas respeitam muito ela por essa iniciativa. Os moradores sempre recorrem a ela. A comunidade toda, em cada casa, tem alguma receita da Regina, alguma dica dela — afirmou Paraíso, de 32 anos.

Segundo o secretário, alguns moradores, que no início criaram resistência em experimentar os pratos, quebraram alguns preconceitos e começaram a mudar os hábitos alimentares por conta do Favela Orgânica. Para ele, tabus foram quebrados, e a favela abraçou o projeto.

Ingredientes orgânicos: morango, maracujá, talo de espinafre e casca de banana são usados para montar um cardápio consciente

Ingredientes orgânicos: morango, maracujá, talo de espinafre e casca de banana são usados para montar um cardápio consciente Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Criado em 2011, o Favela Orgânica nasceu da vontade de Regina de compartilhar seu dom na cozinha. Morando no Rio há 18, a paraibana trabalhava como empregada doméstica à época em que abriu sua primeira cozinha na favela. Com a evolução e o crescimento da iniciativa, hortinhas começaram a brotar pelas vielas da Babilônia, o boca à boca repercutiu o trabalho, que decolou, literalmente: Regina já viajou à Europa dez vezes para dar palestras e workshops.

Os frequentadores que vão às aulas de Regina saem de lá aprendendo a transformar sementes, raízes, cascas e folhas de alimentos orgânicos em pão, doce, risotos, cocada e aperitivos. Apresentada ao Favela Orgânica há três anos, Ana Alice Alves, de 54 anos, mora na comunidade vizinha do Chapéu Mangueira e disse que não tinha ideia do que se podia fazer com os alimentos jogados fora.

— Para mim, foi e ainda é muito enriquecedor a experiência no Favela Orgânica. Hoje, faço farofa de talo de couve, de espinafre; e arroz com talos para o pessoal lá de casa. Eu trabalho vendendo docinhos e, quando conquistar a confiança da clientela, vou começar a colocar os ingredientes usados pela Regina.

Publicado em O Globo

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